Podemos confiar na Wikipédia durante a pandemia de COVID-19?

Texto originalmente publicado na Revista Espírito Livre, em abril de 2020.

Sempre admirei o trabalho incrível feito pela Revista Espírito Livre, e me senti honrado quando recebi de meu amigo João Fernando o convite para ser colunista aqui. Pensando sobre qual seria meu tema de estreia, não tive como fugir do assunto que está dominando todas as conversas do momento: a pandemia de COVID-19.

Muito conteúdo tem sido gerado sobre o surto da doença e, nos últimos meses, jornais, televisões, redes sociais e grupos de mensagens estão incansavelmente compartilhando informações sobre o vírus, dicas sobre prevenção, notícias de possíveis curas e vacinas, teorias acerca da origem da pandemia, etc. No meio desta enxurrada de informações, muitas vezes contraditórias e quase nunca com fontes claras rastreáveis, o cidadão fica perdido, sem saber o que é crível e o que é mera especulação ou fake news.

A receita que tenho para saber em qual informação confiar é muito simples: eu acesso a Wikipédia! Alguns podem dizer que estou louco, e que a enciclopédia virtual poderia até ser usada para saber quem ganhou um torneio de futebol, ou a lista de participantes de uma edição do Big Brother, mas que jamais deveria ser levada a sério em um assunto tão importante.

Uma afirmação como essa só pode ser feita por quem não conhece o funcionamento da Wikipédia. A “enciclopédia livre, que qualquer um pode editar” não se tornou um dos sites mais visitados do mundo (o primeiro colocado entre os mantidos por instituições sem fins lucrativos) espalhando achismos e, em seus quase 20 anos de estrada, desenvolveu políticas editoriais que garantem a qualidade de seu conteúdo.

Sendo uma obra escrita por não especialistas, a Wikipédia tem como um de seus princípios ser fonte terciária de informações. Isso significa que, para uma informação ser exibida lá, precisa já ter sido publicada em uma fonte secundária. Na prática, textos auto publicados, declarações, opiniões e todo tipo de informação que não tenha sido validada por uma fonte secundária, considerada fiável pela comunidade, não poderão ser incluídas nos verbetes. Essa lógica é garantida pela política de verificabilidade, que dita a obrigatoriedade de inclusão de referências para toda informação escrita nos verbetes.

Ademais, existe a famosa “Lei de Linus”, cunhada por Eric Raymond ao explicar como o desenvolvimento de softwares livres funciona: “Dados olhos suficientes, todos os erros são óbvios”, que se aplica muito bem à Wikipédia. Toda edição feita passa pelo escrutínio de filtros de edição e bots, que podem impedir ou rapidamente reverter uma edição que seja identificada com um padrão danoso para o site. Após os controles automatizados atuam os humanos patrulhadores, que utilizam ferramentas para monitorar a página de mudanças recentes da Wikipédia, revisando todas as edições salvas em tempo real. E os vigilantes, que escolhem páginas para vigiar e recebem alertas por e-mail toda vez que uma edição é feita em um dos verbetes de sua lista.

Agora que você já começou a entender como a Wikipédia funciona podemos voltar ao COVID-19, e observar o que os wikipedistas tem produzido sobre ele.1

Imagem do vírus SARS-CoV-2 disponível na Wikipédia desde o dia 13 de fevereiro de 2020, com a legenda: “Imagem de viriões de SARS-CoV-2 obtida por microscópio eletrónico de varrimento, em que se observa partículas virais a emergir de uma célula”. Licença: domínio público. Autor NIAID Rocky Mountain Laboratories (RML), U.S. NIH. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:SARS-CoV-2_49534865371.jpg .

Quando o vírus foi identificado, em dezembro de 2019, já existia um verbete chamado “Coronavírus” na Wikipédia. Essa palavra é utilizada para denominar um grupo de vírus, e o verbete já versava sobre os agentes infecciosos responsáveis por outras doenças, como SARS e MERS. Essa página apresentava em dezembro de 2019 uma audiência de 11 acessos por dia, e oferecia a seus leitores um simplório conteúdo de 1.421 bytes, com duas referências, não sendo atualizada desde 2015. Mas chega janeiro de 2020, e com ele o interesse crescente pelo assunto. Logo no início do ano o verbete vê uma escalada monstruosa de acessos, chegando ao pico de 167.158 acessos no dia 29 de janeiro de 2020. E, junto com o interesse dos leitores, também cresce o engajamento dos editores.

Nos dias seguintes o verbete passa a ser massivamente editado por várias pessoas, aumentando em 12 vezes seu tamanho e expandindo em 1000% seu número de referências!2 Calma que ainda tem mais! Com o aumento do interesse no assunto, os wikipedistas começaram a criar novos verbetes para detalhar questões específicas sobre o tema, como “Coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave 2”, para tratar deste novo vírus em si, “COVID-19”, para falar da nova doença, “Pandemia de COVID-19”, para explorar o surto vivido agora pelo mundo e “Pesquisa de vacina para COVID-19”. Vejamos na tabela a seguir alguns dados de edição e de visita destes artigos:

Verbete Data de criação Total de visitas Visitas diárias em 2020 Edições Editores Bytes Referências
Coronavírus 15/07/05 438.989 20.904 23 8 18.860 29
Pandemia de COVID-19 20/01/20 260.873 12.423 304 58 90.679 337
COVID-19 11/02/20 111.352 5.302 113 31 68.793 103
Coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave 2 20/01/20 42.354 1.949 101 37 10.947 19
Pesquisa de vacina para COVID-19 15/03/20 335 16 7 2 21.573 42

Podemos ver que três dos novos artigos já receberam uma enorme atenção dos usuários, e o último já apresenta um volume considerável de informações para um verbete com menos de uma semana de vida. Vale também destacar que o verbete Coronavírus tem 36 vigilantes, que recebem e-mails a cada edição feita, e o “Pandemia de COVID-19” conta com 42. E, enquanto finalizo este artigo, os verbetes “Coronavírus”, “COVID-19” e “Coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave 2” estão protegidos para usuários autoconfirmados (cadeado azul no topo da página ao lado do título), o que significa que usuários anônimos e recém criados não podem editar essa página. E, o atual maior verbete sobre o tema, “Pandemia de COVID-19”, está protegido para autorrevisores (cadeado cinza), o que significa que somente pode ser editado por um grupo ainda menor de editores, previamente reconhecidos como bons contribuidores da enciclopédia.3

Sabendo de tudo isso tenho certeza que agora você poderá acessar a Wikipédia com mais tranquilidade. Mas não esqueça: ela é apenas uma (muito boa!) enciclopédia. Se quiser realmente se aprofundar no tema e ler o que os especialistas estão produzindo agora sobre o assunto, nenhuma enciclopédia será suficiente para sanar sua curiosidade. Você deverá mergulhar na literatura especializada sobre o assunto para encontrar o que busca. Imagino agora que o leitor deva estar se perguntando: mas onde encontrarei tal literatura específica de forma estruturada e catalogada para saber o que e onde ler? Uma dica: dê uma olhada na seção de Referências que aparece ao final de todo verbete da Wikipédia, você pode se surpreender 😉

1Todos os dados aqui citados foram obtidos no fechamento desta edição, no dia 19/03/2020.

2Dados sobre os verbetes podem ser encontrados em https://tools.wmflabs.org/pageviews/?project=pt.wikipedia.org&platform=all-access&agent=user&range=latest-20&pages=COVID-19|Coronav%C3%ADrus_da_S%C3%ADndrome_Respirat%C3%B3ria_Aguda_Grave_2|Coronav%C3%ADrus|Pesquisa_de_vacina_para_COVID-19|Pandemia_de_COVID-19 .

3Não caberá neste texto uma explicação mais detalhada sobre o funcionamento dos grupos de usuários e níveis de proteção de páginas, mas o assunto pode vir a ser tratado em um artigo futuro se for de interesse dos leitores da revista.

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