Monte Cervino


Eu sempre viajei o mundo através dos livros, dos filmes, da minha fértil imaginação. Nunca senti necessidade de me deslocar até um ponto do globo para saber como ele é. Sempre bastou fechar os olhos e pronto! Lá eu estava.


Mas então te conheci. Meio beatnik e meio hippie, com pitadas de trocentas outras referências não listáveis por um reles mortal. Você que jovem caiu na estrada, e me contou madrugadas afora sobre as delícias e decepções de viver na prática meus sonhos. Você que me instigou a desbravar rodovias rumo a uma pequena cidade no meio do nada. Sem certezas. Levando apenas uma mochila e um sorriso. 


Ali naquele estacionamento, depois de passar o dia como um andarilho sem rumo testando os melhores bancos da cidade para me encostar e ler Allen Ginsberg, quando meu olhar fitou o seu eu sabia que o caminho era sem volta, e que aquela cidade era uma mera escala em um caminho que seria criado ao caminhar.


Quanta energia pode caber em uma pessoa?!? Com certeza o suficiente para abastecer várias cidades. Pelotas, Cascavel, Pato Branco, Caiobá… nenhuma delas seria capaz de consumir tamanha energia que se expande para o universo e além.


Ter que voltar para casa foi angustiante. Eu tremia naquele ônibus assim que você foi embora da rodoviária. Inclusive desci e, eu que havia parado de fumar, pedi um cigarro ao motorista. Precisava me drogar para conter a ansiedade de estar me afastando daquelas tatuagem despretensiosas que me remetiam a Torres Garcia e abandonando toda a vida que você emanava. Mas nada como o tempo. E viajar de ônibus do Velho Oeste para a capital realmente nos dá muito tempo para pensar. Entre curvas e plantações de milho, escrevendo poesia ruim e lembrando os últimos dias, me toquei que não estava deixando você para trás, mas na verdade eu trazia comigo todo o vigor de uma vida vivida no mundo das coisas, e não no campo dos sonhos.


Mas a verdade é que depois daqueles dias eu nunca mais voltei para casa. Estive no mesmo lugar várias vezes, mas ele já não era o mesmo. Na verdade talvez até fosse, mas eu definitivamente não era. Passei a não caber mais em um quarto, um apartamento, um bairro, uma cidade, um país. O mundo, meu velho pequeno amigo que cabia em minha cabeça, de repente se revelou gigante, cheio de segredos e mistérios a serem descobertos in loco.


Alguns podem suspeitar da veracidade de uma jornada que começou no Portal do Céu (desculpe Seu Elias) ter rodado quatro continentes e, uma década depois, ainda ter a jovial capacidade de se apaixonar. Para esses eu tenho apenas um recado: noites frias tem cheiro de lasanha de strogonoff.

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